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Eternidade no chinelo

Dormíamos todos no mesmo quarto, e já tínhamos uma sala nesta altura da vida. A gente dormia em beliche, eu e meu irmão, e como sou mais velha ficava embaixo. A mãe nos botava para dormir cedo, depois de um dia cheio  de “ô mãaaae, olha ele!”, “foi ela!”, - chinelo voador. Isto, de fato, era todo dia e geralmente íamos dormir magoados e de bundas quentes. Anos 90 eram diferentes, vocês precisam entender, não é uma ode  à violência contra a criança.



Pois é, mesmo assim os chinelos, sempre os chinelos, e todas as vezes que aquele moleque subia na beliche largava os dele lá do alto para eu ter que arrumar os chinelos virados, já que estes eram motivo de medo e raiva, pois continham muito poder. Ele chiava:

“Desvira.”

“Não” - chiava eu de volta

“Se ela morre, a culpa é tua.”

“O chinelo é teu.”

“Eu estou pedindo.” - Miava.

“Não.”

“...”

“Não. Não. Não. Não. ...”

Ele descia e desvirava o dele, pegava os meus e os virava lá do outro lado do quarto, dizendo:

“Ah é, é? Você vai ver!”

Da sala, a ameaça:

“Se não estiverem dormindo eu vou aí e o bicho vai pegar!”

Nisso o moleque já estava na cama e eu pensando:

“ela vai morrer, ela vai morrer, ela vai morrer! MEU DEUS, meu Deus, meu Deus!”

Mas não mexia um músculo sequer.

“Vai lá”- atrevido.

“Ahhh”

Devagar puxei o cobertor e parei de respirar, tudo ficou lento, as minhas veias saltaram e latejaram na cabeça, dentro do meu cérebro enquanto o medo de ser pega no flagra me consumia, porém eu precisava salvar a vida da minha mãe, nada mais importava, nem mesmo se eu morresse tentando, precisava desvirar os chinelos!

Saí da cama, engatinhei pelo quarto e cheguei nos chinelos, calcei ambos nas palmas das mãos e iniciei o processo de retorno quando bati o dedinho do pé na quina do guarda-roupa! Minha alma saiu do corpo e este começou a sacolejar, mordi o beiço para não chorar e me encolhi para segurar o pé.

Minha mãe entrou no quarto e eu estava com o bocão aberto e os chinelos vestidos nas mãos, soluçando de chorar. Ela me pegou no colo e acalentou enquanto eu choramingava:

“Você não vai morrer!”

Meu irmão chiou:

“Trouxa!”

Bem, sei que hoje ela está vivinha da silva, muitas noites de disputas de chinelo, e mesmo que hoje eu saiba que isso é só uma superstição, sigo garantindo a eternidade da vida de minha mãe no chinelo.






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