Pular para o conteúdo principal

Leite com café

   Visitas à casa da minha avó eram um ritual semanal, aos sábados. Minha mãe nos acordava cedo e nos vestia, eu e meu irmão, e os três nos encaminhávamos pelas ladeiras da vila e pegávamos um ônibus até a casa que se encontra na viela. Meu pai não nos acompanhava, e quando estava de folga, meu avô estava lá. Normalmente era como neste dia: eu, minha mãe e avó, meu irmão e meu tio da minha idade.
   Só lembro deste dia por conta de que, o meu aniversário é no dia quinze de novembro, e até então eu vinha aniversariando normalmente, e neste ano em específico, 1989, passaram a fazer ressalvas ao meu dia, que seria o dia da eleição, e ficarem me atentando aquilo era realmente um saco.
   Minha avó serviu o leite quente com café, um copão enorme, lembro que minha cara ficava na altura da mesa, imagine só o cotovelo!  E todos já falavam "Não derrube o copo, Laurinha!". Aha, um gole e o leite ia por toda a toalha. "De novo, Laurinha!", posso dizer que eu concentrava força e esmero para não derrubar aquele copão, e a sensação de fracasso era... e eu chorava!
   Limpa, serve de novo, recomenda, dá bronca, tudo de novo. Os moleques zoam e reprovam como sempre. Elas duas desde que chegamos parecem fadas, com poderes de previsão, prevenção e manutenção. E ainda conversam, preparam o café, se alimentam em pé e lavam a louça. Incríveis.
   Na varanda, geralmente as duas ficavam olhando a gente, e nós no quintal com a bola. Mas este dia eu não quis brincar, sentei na cadeira e minha mãe ao meu lado em pé resplandecia sob uma luz quente, seus cabelos cacheados, sorria e se divertia com a conversa:
   - Decidiu em quem vai votar?
   - Mas é claro, vou votar no Collor, né! - declarou a minha vó espalhafatosa.
   - Só porque ele é bonitão!  completaram as duas em coro, rindo calorosamente.
   Era um momento histórico, e eu participava dele assim, sem entender bulhufas, porque meu aniversário se estragaria, todos estavam falando desse Collor e de que no meu aniversário seria um dia que não daria para fazer festa e a minha mãe e minha avó provavelmente fariam seu primeiro voto.
   Se votaram mesmo no Collor eu não sei, e talvez um dia eu pergunte, porém, isto realmente não é o mais importante. O que importa é lembrar que no meu aniversário elas puderam fazer isto, e que eu conheço a história delas e sei que podemos derrubar o leite com café, e aprender com nossos erros, passo a passo, não é?
9/6/2020

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema unicórnio

 Se eu paro A paralisia é um sinal Mas o diagnóstico É possível  Da passividade  Do profissional E não de mim Se há veneno Ou é psicossomático O corpo É social Posso falar Mas a audição É real ou virtual? A minha ação não  Faz mais que  condição  E o planejamento Condiz com a prática E a ática  Reverberação dissociativa Literária precisa de uma Relação interlocutiva Ou não Não mais Não mais Não mais O resultado é solitude É solidão É produto  Não é reduzido É produto Pro du to A di ver são  A ca bou 16/4/2021

Misofônica

3/7/2023 No ruído incessante das salas de aula, desenrola-se uma batalha silenciosa, imperceptível aos demais. Uma garota carrega consigo a condição da misofonia, uma hipersensibilidade auditiva que transforma até os sons mais sutis em tortura angustiante. Cada riso, tosse ou mastigação ao seu redor é como uma agulha afiada cravada em seus ouvidos, mergulhando-a em uma profunda aflição. Enquanto se esforça para se concentrar nas lições, a cacofonia invasiva enche sua mente, minando sua capacidade de aprendizado. Em casa, a situação não é diferente. Os sons do dia a dia se transformam em tormento, convertendo as refeições em um campo minado e mesmo as conversas mais triviais em uma fonte inesgotável de dor. Assim, a protagonista enfrenta um sofrimento constante, buscando refúgio em ambientes silenciosos ou nos fones de ouvido, que, ao abafar os ruídos com suas músicas preferidas, lhe proporcionam um alívio temporário. A cada dia, ela trava uma batalha entre o desejo de se integrar socia...

O anel da falecida de Edson Gabriel Garcia