Pular para o conteúdo principal

Amizade de 1 centavo

 Tudo o que é distante é relativo. O que não é relativo é o dinheiro e o quanto podemos perceber de nossa realidade segundo o pensamento da classe dominante. Quê?

Se eu tenho um centavo eu compro o quê? Nada! Ah, não é bem assim... mas há quanto tempo não vejo uma moeda de um centavo! Bem, se eu quiser eu compro um selo, e se um tiver cadastro no Bolsa Família, mando uma carta social!!! Porém, e se eu não tiver papel, lápis e envelope?

Tudo que é distante é relativo, hoje para mandar uma carta social eu preciso ser cadastrado no Bolsa Família e ter um centavo, mas antes não. Do que é que eu estou falando? Bem eu falo da década de 1990, viu como é relativo?

Ainda não havia internet no Brasil "que nem água". Eu, como uma garota paulistana periférica e da rede pública de ensino, com o privilégio da pele branca e família nuclear, descobri o mundo da literatura â força aos doze anos, assim como o mundo do anime com os Cavaleiros do Zodíaco, e a gente, ou , a garotada, andava em torno das bancas de jornal farejando João Bidu e outras revistas. Capricho era surreal, a gente não pagava, já que não podia. Quando dava para comprar revista, era com esforço, e vinham com sessão de endereços de fã-clube, fanzine etc (vai pesquisar, baby). Foi assim que conheci muita gente fora do bairro e da cidade toda, sem contar de outros estados, e o carteiro batia ponto na minha casa.

Você, querida leitora, querido leitor, acha que eu tinha tinha grana para pagar selo para a relatividade de tudo que era esta distância? Ah, não mesmo! O que apoiou minha jornada de socialização foi o direito à carta social, a caixa de correio no fim da rua ( até hoje não há agência de correios em meu bairro), e cola e tesoura para fazer envelope e o calo no dedo de escrever cartas que quebravam regras que os carteiros, que já nos conheciam, passavam pano para a gente, relativamente eu imagino.

Sério, mudei de casa no bairro, já que não vivo mais com minha mãe, e quando o carteiro não consegue me entregar uma carta, ele vai lá na minha mãe entregar até hoje, gente! Eu amo os correios!

Mesmo quando a linha telefônica começou a se popularizar, meu pai conseguiu o consórcio, todos os amigues já conseguiram se ligar, as ligações eram caras em dinheiro e em broncas e brigas, até hoje a gente evita ligar devido aos traumas... a Telesp foi privatizada, tudo foi privatizado... até parece que "é que nem água", né? 

Depois veio a internet discada... que horror. Fazer o ensino remoto hoje e rememorar aquele período! Toda distância é relativa... você não sabe o que é internet discada? Oh glória! Dá uma pesquisada e depois levanta a mão pro céu.

Me escreve uma carta com uma página frente e verso, esse é o discador. Sabe o Google? Então, não tinha nem similar, tinha que ter o endereço digital para digitar na barra do world wild web, aí: como assim você não tem anotado em sua agenda de papel? Pegou o cartão do vendedor? Pois é, tudo que é distante é relativo. 

Eu acabei de contar uma história de evolução para falar mesmo que as coisas possam parecer "que nem água", o pior fator é o da "água encanada",  Hoje em dia nem todos tem acesso à água encanada, ter um centavo não é ter uma carta social, o que é uma política de de inclusão social quando a internet é declarada pela ONU como um Direito Humano e até mesmo uma carta, ler e escrever, ou beber água potável ainda não está garantido?

O que seria a internet social, então? Os anos 1990 não me parecem tão distantes, e eu me sinto tão velha.



#cartasocial #internet #inclusãosocial #amizadedeumcentavo #cronica #prosa  #ilustração #ilustration #bee #correios #carteiro #umcentavo #internetsocial #autora #ilustradorasbrasileiras #autorabrasileira



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema unicórnio

 Se eu paro A paralisia é um sinal Mas o diagnóstico É possível  Da passividade  Do profissional E não de mim Se há veneno Ou é psicossomático O corpo É social Posso falar Mas a audição É real ou virtual? A minha ação não  Faz mais que  condição  E o planejamento Condiz com a prática E a ática  Reverberação dissociativa Literária precisa de uma Relação interlocutiva Ou não Não mais Não mais Não mais O resultado é solitude É solidão É produto  Não é reduzido É produto Pro du to A di ver são  A ca bou 16/4/2021

O anel da falecida de Edson Gabriel Garcia

 

Eternidade no chinelo

Dormíamos todos no mesmo quarto, e já tínhamos uma sala nesta altura da vida. A gente dormia em beliche, eu e meu irmão, e como sou mais velha ficava embaixo. A mãe nos botava para dormir cedo, depois de um dia cheio  de “ô mãaaae, olha ele!”, “foi ela!”, - chinelo voador. Isto, de fato, era todo dia e geralmente íamos dormir magoados e de bundas quentes. Anos 90 eram diferentes, vocês precisam entender, não é uma ode  à violência contra a criança. Pois é, mesmo assim os chinelos, sempre os chinelos, e todas as vezes que aquele moleque subia na beliche largava os dele lá do alto para eu ter que arrumar os chinelos virados, já que estes eram motivo de medo e raiva, pois continham muito poder. Ele chiava: “Desvira.” “Não” - chiava eu de volta “Se ela morre, a culpa é tua.” “O chinelo é teu.” “Eu estou pedindo.” - Miava. “Não.” “...” “Não. Não. Não. Não. ...” Ele descia e desvirava o dele, pegava os meus e os virava lá do outro lado do quarto, dizendo: “Ah é, é? Você vai ver!” D...