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Objeto caidor não identificado

Fran tinha 9 anos e era uma menina preguiçosa, tão preguiçosa que não gostava de seu nome, por ser muito grande: Francisca, por isso pedia para chamarem-na de Fran, assim ficava mais fácil, mais rápido, mais resolvido.
Coisa que mais detestava era acordar cedo. E não achem que cedo para ela era cinco horas da manhã, não! Para ela cedo é nove horas da manhã. Pois, então, está muito feliz esse ano que estuda à tarde, e a perua passa na casa dela ao meio dia, assim ela acorda onze horas só para se trocar e arrumar o material... a não ser quando a Dona Chatilda a manda fazer as coisas antes de ir para a escola.
Dona Chatilda era como ela chamava a mamãe. Claro que só ela sabia disso, pois NUNCA diria a mamãe que a chamava assim, pois seria capaz de perder os dentes, não por força das palavras e sim pela força do tapão que mamãe, vulgo Dona Chatilda, remeteria contra sua boca.
E para variar hoje era um dia desses. Fran deveria acordar cedo para limpar o quintal, antes de ir para a escola, porque Lola havia emporcalhado todo, espalhando o lixo que ela havia derrubado, fuçado e comido e vomitado, durante a noite. Fran estava muito brava, por ter que acordar cedo, e mesmo que fosse só uma hora antes, já era a tortura, uma escravidão, como ela disse:
- Você está me escravizando, manhêeeeeeee!
- Para de frescura e me ajude, pois estou saindo para trabalhar, e a Lola é nossa cachorra, você precisa dividir as responsabilidades comigo! Sua avó não tem obrigação de fazer isso!
- Ahhhh, mãaaaaaaaaaaaaaaeeeeeeeeeee! – Fran levantou sonolenta e foi para o banheiro. Ganhou um beijo da mãe e outro da avó.
Foi à cozinha e abriu a geladeira, nada, não tinha nadaaaa! Nada que ela quisesse, tinha bastantes legumes, feijão, um pouco de sopa, mas nada do que ela queria. Bufou e bateu a porta da geladeira com força, saiu arrastando o chinelo.
- Não bate a porta da geladeira, menina!
Fran ignorou e pegou um copo, encheu de água na torneira e bebeu a grandes goles, encheu de novo e bebeu mais. Estava deliberadamente enrolando. A avó disse:
- Vai logo, Dona Enrolilda.
- Hummmmmmmmm. 
Enfim, ela chegou ao quintal, o mau cheiro era insuportável, era um caos total. Pegou a vassoura e a pá, começou a varrer e colocar tudo no saco de lixo o mais rápido que podia, e em seus pensamentos só tinham uma palavra: RÁPIDO, RÁPIDO, RÁPIDO...
E quando tudo já estava no saco de lixo, ela foi pegar a mangueira no muro, houve algo muito estranho, que na verdade aconteceu bem rápido no tempo normal, mas para a Fran pareceu acontecer em câmera lenta. Quando ela parou para desenrolar a mangueira do suporte, sentiu uma presença ao seu lado direito e acima da sua cabeça, como quando há uma pessoa olhando insistentemente para você, e você nem mesmo havia reparado que havia uma pessoa ali, quanto mais que ela estava olhando para você.
Porém, quando Fran teve o reflexo para olhar para cima e para a direita, já era muito tarde, pois ela não era tão rápida quanto a gravidade, e o corpo que se desprendia em queda do muro ao chão passava zunindo pelo seu ouvido no momento em que ela começou a levantar a sua cabeça.
Quando seus olhos atingiram o topo do muro, vazio, com o céu enublado e acinzentado já havia soado oco o TOC batido no chão daquilo que a horrorizaria quando o movimento da cabeça sincronizasse com o do som, muito mais rápido que seus reflexos:
No chão havia uma barata com as patas para cima, se debatendo loucamente para virar! Uma barata que quase caiu no seu cabelo, que quase caiu na sua cabeça! Uma barata que estava se esperneando e ela, Fran, não conseguia se mexer, gritar ou reagir, só ficava ali, com a cabeça inclinada e os olhos petrificados, para aquela barata.
22/11/2018

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