Pular para o conteúdo principal

Cesar Aira e o absurdo em "Como me tornei freira"

Se você já viu literatura nonsense, sabe que lidar com o absurdo está para a comédia e a fantasia de um modo que faz o seu cérebro dar uma certa expandida, e às vezes num sentido bom e às vezes nem tanto.

O fato é que para desenvolver sinapses no cérebro, precisamos desafiar a nossa mente, aprendendo com livros que tragam realmente propostas de aprendizagem, livros que sejam da nossa prática e que gostemos e livros que mexam com nosso lugar no mundo, fazendo a gente questionar, inserindo novas imagens na nossa cabeça, sejam imagens literalmente, aquelas que vemos para quem consegue ver imagens na mente, ou aquelas que ficamos discutindo com nosso eu interno durante a nossa vida, ressignificando.

O nonsense mexe com a gente de um jeito que perdura, afinal, "Alice no país das maravilhas", um grande modelo do absurdo, perdura pelas possibilidades que ele gera, principalmente pelas suas capacidades de geração a geração. É como usar um elemento de paraíso artificial, que cada vez que você ativa na mente ele reverbera.

Eu tive a oportunidade de reassistir "True Detective" recentemente, para me conectar com a nova temporada que está, dia 28 de janeiro de 2024 (amanhã), liberando o terceiro episódio da quarta temporada, e o episódio anterior fez uma conexão direta com Rust, personagem da primeira temporada, em relação às suas capacidades sinestésicas, o que é muito pertinente no que se refere ao que vou falar aqui e agora e ao nonsense: nós temos mais de cinco sentidos, e há quem tenha esse que Rust tem, a capacidade de sentir para além, sentir um gosto de uma cor, o cheiro de uma cor, coisas assim.

E ainda podemos fazer uma pesquisa simples no Google e ele fala que temos uns sete sentidos, um deles é a capacidade de saber o que o próprio corpo faz. Um dos exemplos é, por exemplo, sentir que está ovulando, ouvir e sentir as próprias batidas do coração, e eu posso colocar aqui a de sentir sinapses se formando no cérebro no momento de uma nova aprendizagem.

Então voltamos aqui para falar de Cesar Aira e o seu livro "Como me tornei freira". Eu estava procurando uma comédia nonsense e caí em pesquisas que foram se afunilando até que foram aparecendo as listas de autores e, por fim, livros. Dentre tudo, parei neste livro e, por mais que não parecesse comédia, me arrisquei, e, pasme, não era comédia.

Todas as resenhas e sinopses que li falam do absurdo e da lucidez da escrita, ressaltando que a personagem do conto inicial é transitória entre menino e menina, enquanto no conto final a narrativa é mais surreal e tem mais personagens, com mais imagens fantásticas.

O que fica na mente é o quanto o absurdo do conto inicial é intrínseco à realidade e assusta, pois o conto tem uma profundidade de horror que muitos romances e contos de terror que já li não conseguiram causar em mim. Eu sou uma leitora desse gênero e gosto de contos e romances de terror, principalmente os psicológicos, e Cesar Aira conseguiu me capturar de um modo que há tempo eu não era.

Os dois contos do livro usam personagens narradores com o nome do autor, e se ambientam na Argentina, com fundo no período que se assemelha ao da infância do autor, segundo as sinopses e resenhas que li. Ainda podemos ressaltar que se há experiências de fundo real, isso só torna o efeito mais assustador.

Dentro do que há em "Como me tornei freira", a personagem principal se entende como menina e a si sempre se remete como tal, mesmo amando seu próprio nome Cesar e tendo todos os outros em seu entorno a chamando pelo gênero masculino. O conto se inicia com aquilo que podemos dizer que é a coisa mais importante de todo o conto e o transpassa em todas as coisas, inclusive a linguagem, que é o sabor do sorvete de morango, que seu pai faz questão de levar para provar a primeira vez na vida e o pai escolhe o sabor de morango, ao qual Cesar diz que é horroroso e o pai o obriga a comer enquanto a criança diz que é amargo. O sorvete não poderia ser de tutti-frutti ou baunilha, apenas de morango. Tudo o que se desenvolve nos entremeios de Cesar e do conto está nisso e se encerra nisso e eu achei o conto tão bonito em sua construção quanto aterrorizador, ele fica na retina da minha alma marcado como algo que eu vou ficar rememorando.

O conto dois é "A costureira e o vento", nele Cesar e seu amigo vão brincar de esconde-esconde e o amigo entra na caçamba do caminhão para fazer susto ao amigo, mais ou menos isso, só que quando Cesar o procura, o amigo dá o maior susto do mundo, já que não está lá e em lugar algum, e daí sai toda a narrativa, todos vão procurar o menino, ou mais ou menos, pois primeiro a polícia, depois a mãe, depois o pai atrás da mãe, depois a tia atrás do vestido e assim vai. Tudo também na pista do caminhoneiro.

Muitas das imagens do conto dois são bem bonitas e assustadoras, a da boleia do caminhão e da parada são muito parecidas com as de "Twin Peaks" e a do quadro da Laura Palmer, ou do posto de gasolina e os queimados de David Lynch, e aqui como lá são aterrorizantes e surreais.

Eu lerei mais do autor e acho que todo mundo deveria ler, de fato vai longe na mente e aquilo que fertiliza a sua e a minha vai dar muito mais que falar.

Capa do livro
#lgbt #nonsense #terror #suspense #latinoamericano #argentino #cesaraira #resenha 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema unicórnio

 Se eu paro A paralisia é um sinal Mas o diagnóstico É possível  Da passividade  Do profissional E não de mim Se há veneno Ou é psicossomático O corpo É social Posso falar Mas a audição É real ou virtual? A minha ação não  Faz mais que  condição  E o planejamento Condiz com a prática E a ática  Reverberação dissociativa Literária precisa de uma Relação interlocutiva Ou não Não mais Não mais Não mais O resultado é solitude É solidão É produto  Não é reduzido É produto Pro du to A di ver são  A ca bou 16/4/2021

O anel da falecida de Edson Gabriel Garcia

 

Eternidade no chinelo

Dormíamos todos no mesmo quarto, e já tínhamos uma sala nesta altura da vida. A gente dormia em beliche, eu e meu irmão, e como sou mais velha ficava embaixo. A mãe nos botava para dormir cedo, depois de um dia cheio  de “ô mãaaae, olha ele!”, “foi ela!”, - chinelo voador. Isto, de fato, era todo dia e geralmente íamos dormir magoados e de bundas quentes. Anos 90 eram diferentes, vocês precisam entender, não é uma ode  à violência contra a criança. Pois é, mesmo assim os chinelos, sempre os chinelos, e todas as vezes que aquele moleque subia na beliche largava os dele lá do alto para eu ter que arrumar os chinelos virados, já que estes eram motivo de medo e raiva, pois continham muito poder. Ele chiava: “Desvira.” “Não” - chiava eu de volta “Se ela morre, a culpa é tua.” “O chinelo é teu.” “Eu estou pedindo.” - Miava. “Não.” “...” “Não. Não. Não. Não. ...” Ele descia e desvirava o dele, pegava os meus e os virava lá do outro lado do quarto, dizendo: “Ah é, é? Você vai ver!” D...