Pular para o conteúdo principal

Uma viagem à liberdade do eu em "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector

Em dezembro de 2023 eu fiz a leitura da obra, a qual posterguei, como fazemos com algo por motivos diversos que nem sempre faz sentido. E a hora foi boa, pois eu estava com a cabeça certa para a leitura que fiz.
Há diversas perguntas que eu não consegui responder, por exemplo, o que é que correspnde a G.H., ainda paira em mim e se você souber, me conta.
Mas o que descobri foi que se eu podia esperar surpresas, a maior era a de encontrar uma viagem de cunho tal qual as de obras de ficção científicas renomadas, e de um olhar aguçado com temáticas maiores da época e que vicejam a mulher de modo que a autora faz uma compreensão de aspectos que só sua prosa poderia
A protagonista está sozinha na sua cobertura, tal qual Deus, criando suas obras na massa de pão, num lugar asséptico e solitário, e cria ali o seu aporto sobre as conjecturas de si através das relações com os outros.
Parte entao para a limpeza do que tem certeza que será o único lugar sujo da casa, o quarto da empregada, e quando chega lá encontra desenhos rupestres, representações humanoides de deuses difere tes dela, ela se depara com uma realidade que a tira do poder que foi dado a ela pela elite máxima das crenças que tinha. Ainda mais ao encontrar ali o lugar mais limpo e soco que o restante do apartamento.
Ao se deparar com a outra deusa, a outra de si, converge diretamente para a disputa de território mais determinista que é quando a luta vai para o encontro mais selvagem, dentro do armário encontra a barata e com ela trava a luta mais ferrenha de todos os tempos, literalmente.
G.H. acaba lidando com o outro da mulher e viaja para os primordios da Terra e vê ali os seres que deram origem nao ao que seria aos humanos, mas sim às primeiras que derivariam de um lado a mulher e de outro a barata e por vias de evolução uma muda e outra mantém características da primeira separação e assim vemos que enquanto o homem tem na mulher o outro, a mulher tem na barata o outro.
Há diversos elementos, desde o suco da vida que é o elemento psicodélico que permite a viagem, as vidas que G.H. pode viver dentro dessa viagem pelos tempos, tudo isso encarando a barata presa com o ventre no portal, com seus olhos encarando-a enquanto a gosma branca resseca e amarela.
A premissa é de ver que estamos condenados à liberdade e ainda que para ser livre é preciso entender, tal qual os existencialistas da época viam, niilistas, entender que nada faz sentido de fato, e por isso, apesar de parecer desesperançoso, a esperança é a maior coisa que há no que espera depois do que temos ali na linha entra o destino e a liberdade completa.
Essa leitura é muito cativante e pode ser densa para algumas pessoas. Há muitas camadas, também. Pretendo ler novamente, ainda mais agora que estou pesquisando sobre erotismo de novo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema unicórnio

 Se eu paro A paralisia é um sinal Mas o diagnóstico É possível  Da passividade  Do profissional E não de mim Se há veneno Ou é psicossomático O corpo É social Posso falar Mas a audição É real ou virtual? A minha ação não  Faz mais que  condição  E o planejamento Condiz com a prática E a ática  Reverberação dissociativa Literária precisa de uma Relação interlocutiva Ou não Não mais Não mais Não mais O resultado é solitude É solidão É produto  Não é reduzido É produto Pro du to A di ver são  A ca bou 16/4/2021

O anel da falecida de Edson Gabriel Garcia

 

Eternidade no chinelo

Dormíamos todos no mesmo quarto, e já tínhamos uma sala nesta altura da vida. A gente dormia em beliche, eu e meu irmão, e como sou mais velha ficava embaixo. A mãe nos botava para dormir cedo, depois de um dia cheio  de “ô mãaaae, olha ele!”, “foi ela!”, - chinelo voador. Isto, de fato, era todo dia e geralmente íamos dormir magoados e de bundas quentes. Anos 90 eram diferentes, vocês precisam entender, não é uma ode  à violência contra a criança. Pois é, mesmo assim os chinelos, sempre os chinelos, e todas as vezes que aquele moleque subia na beliche largava os dele lá do alto para eu ter que arrumar os chinelos virados, já que estes eram motivo de medo e raiva, pois continham muito poder. Ele chiava: “Desvira.” “Não” - chiava eu de volta “Se ela morre, a culpa é tua.” “O chinelo é teu.” “Eu estou pedindo.” - Miava. “Não.” “...” “Não. Não. Não. Não. ...” Ele descia e desvirava o dele, pegava os meus e os virava lá do outro lado do quarto, dizendo: “Ah é, é? Você vai ver!” D...